sábado, maio 09, 2026

Cosmos com Cosmos: Episódio 03 (A Harmonia dos Mundos)

 

“Cosmos com Cosmos” é uma série de publicações composta por ensaios de Casey Dreier, originalmente publicados pela The Planetary Society e traduzidos com autorização da instituição. Os textos convidam o público a assistir e revisitar Cosmos, a clássica série apresentada por Carl Sagan.

    Frequentemente me pedem que eu justifique o estudo do sistema solar diante dos problemas maiores do mundo. Há uma estranha hostilidade contra gastar dinheiro e tempo com esse campo aparentemente esotérico, ou com o envio de uma sonda robótica a um corpo planetário. E há também aqueles que simplesmente dão de ombros e dizem “e daí?” quando o assunto é astronomia.

    Isso é um problema enorme, enorme mesmo — e não apenas na astronomia e na ciência planetária. Se a maioria do público não percebe um benefício — ou sequer uma conexão — com a ciência, então corremos o risco de perder o apoio institucional que sustenta esse extraordinário avanço do conhecimento humano, em cuja época temos a sorte de viver.


    Cosmos, como série, é uma refutação aos “e daí?” do mundo. Ela celebra as conexões entre os indivíduos e o universo, entre os avanços tecnológicos e as centelhas que os impulsionaram, e o modo como a astronomia serviu de força motriz do mundo moderno.

    Sagan afirma isso de maneira bastante direta na metade do episódio, ao explicar o movimento aparente dos planetas no céu noturno (ênfase minha): “A verdadeira solução é que os planetas são mundos, que a Terra é um deles, e que todos giram em torno do Sol segundo leis matemáticas precisas. Essa descoberta levou diretamente à nossa moderna civilização global.”

    O Episódio 3, “A Harmonia dos Mundos”, demonstra exatamente como isso ocorreu, embora trate da questão de forma um pouco mais oblíqua do que eu preferiria. A manifestação humana concreta desse momento constitui o coração e a alma do episódio: Johannes Kepler, um homem corajoso, contraditório e brilhante, vivendo em um tempo de sordidez e conflito.

    Mas o episódio começa com um foco na astrologia, um vírus memético que infecta o pensamento humano há milhares de anos.

    Sagan demole alegremente a pseudociência da astrologia, e não apenas com argumentos fortes e lógicos, mas também ao destacar a estreiteza provinciana desse campo. A sequência que contrasta a magnífica estranheza dos planetas com seus dublês astrológicos é belissimamente feita. A natureza “régia” do Júpiter da astrologia empalidece diante dos ventos violentos de sua Grande Mancha Vermelha, três vezes maior que a Terra. Por que escolher a astrologia, quando a realidade astronômica é muito mais grandiosa?

    A astrologia é, em certo sentido, maravilhosamente humana. Ela condensa nossas contradições e inseguranças mais profundas: a necessidade de nos sentirmos importantes e, ao mesmo tempo, impotentes diante do destino; o desejo de conhecer o futuro para que possamos alterá-lo; a vontade de explicar nossos defeitos, mas também de reivindicar mérito por nossas capacidades. Ela é o inverso da astronomia moderna. Na astrologia, somos os personagens principais; na astronomia, espectadores insignificantes diante do grande destino cósmico.

    Deixamos a astrologia para trás e vemos Sagan no deserto, acendendo uma fogueira — um belo momento simbólico —, enquanto ele nos introduz à ideia de previsibilidade por trás de certos comportamentos físicos no mundo. Essa ideia de previsibilidade, como discuti no comentário sobre o Episódio 1, é o fundamento mesmo da ciência — é a razão de termos um cosmos (ordem), e não um caos.

    Quando Sagan dirige nosso olhar para o céu noturno, vemos entre as estrelas a constelação familiar da Ursa Maior. Mas então um novo padrão de linhas sobre essas mesmas estrelas cria algo estranho ao nosso olhar. Os padrões que se seguem, ainda mais. Exibir constelações alternativas sobre o mesmo conjunto de estrelas da “Ursa Maior” é também um ataque sutil à astrologia, além de um importante lembrete de nosso próprio chauvinismo cultural.

    As constelações costumam nos ser ensinadas ainda na infância. Para muitas pessoas, sua educação em astronomia termina aí. É isso que levam consigo para a vida adulta. São as constelações que as pessoas sempre perguntam nas observações do céu em grupo ou durante noites escuras ao redor das brasas incandescentes de uma fogueira. As pessoas internalizam ideias ensinadas quando crianças e, como Sagan sugere, esses padrões criados por seres humanos podem acabar sendo confundidos com a própria ciência da astronomia. Mas eles são projeções arbitrárias da cultura humana sobre o céu acima de nós. Não há razão para que tenham exatamente as formas que têm, além do fato de compartilharmos certa herança cultural com os primeiros povos que lhes atribuíram essas interpretações. Tragicamente, aquilo que a maioria das pessoas sabe sobre o céu noturno é justamente sua característica menos importante — e menos científica.

Constelação egípcia antiga da Ursa Maior — uma das interpretações mais criativas desse mesmo conjunto de estrelas que conhecemos como o “Grande Carro”. Imagem: Cosmos.

    A astrologia, tão preocupada com qual constelação está surgindo em determinado momento e com qual estrela está em qual constelação, perde qualquer base na realidade assim que percebemos que outras culturas têm ideias completamente diferentes sobre quais constelações são essas. Essa é sua falha fundamental: a subjetividade.

    A astronomia, como vemos neste episódio, é o oposto disso. Ela depende da realidade objetiva do céu noturno. Da ideia de que qualquer pessoa pensante, mais cedo ou mais tarde, chegará às mesmas conclusões sobre as propriedades das estrelas que qualquer outra — independentemente de sua cultura. Não existe uma astronomia egípcia (ou europeia, ou indiana, ou alienígena etc.). Poucos momentos foram mais importantes para a história da ciência do que a separação entre interpretações subjetivas e objetivas do céu noturno.

    Kepler atravessava justamente essa linha divisória, essa fronteira histórica. Tinha profundo respeito pelos dados, mas nunca abandonou de fato sua teoria sobre a relação geométrica entre as órbitas dos planetas. Abraçou a numerologia e a astrologia, trabalhando durante boa parte de sua vida como astrólogo da corte, mas ao mesmo tempo usou a matemática para representar o comportamento da natureza. Seu trabalho acabaria por destruir a respeitabilidade de sua carreira astrológica.

    Mas há nisso uma ironia interessante. Embora a astrologia negocie a falsa arrogância da suposta influência das estrelas sobre nossas vidas, o movimento dos planetas exerceu, sim, uma influência poderosa sobre o curso dos assuntos humanos.

    O movimento planetário ocupa um estado intermediário acessível dentro dos movimentos naturais. Diferentemente, por exemplo, dos objetos em queda aqui na Terra, os planetas se movem lentamente, e suas posições são relativamente fáceis de medir com instrumentos primitivos. Eles se movem no vácuo, de modo que sua velocidade é simples de descrever — não é preciso se preocupar com atrito, tensão tangencial ou outras complicações da dinâmica dos fluidos que perturbam o movimento. Mas seus movimentos são complexos o bastante para desafiar explicações simples. Imagine se a Terra tivesse sido o planeta mais externo — teríamos avançado além da concepção ptolomaica de um universo centrado na Terra e de órbitas circulares? Os planetas são o compromisso perfeito entre complexidade e possibilidade de medição. Seu estranho movimento retrógrado e suas órbitas elípticas — particularmente a de Marte — compeliram Kepler a refletir e, por fim, a derrubar crenças antigas sobre a maneira como eles se moviam.

    Como Marte, Kepler era excêntrico. Foi apenas por causa de seu compromisso, inaudito para a época, com a precisão de suas previsões teóricas que ele se viu levado a rebaixar as órbitas planetárias de círculos perfeitos a elipses; a afirmar que a velocidade dos planetas não era constante, mas aumentava e diminuía conforme sua proximidade do Sol; a compreender que havia uma relação matemática básica entre o tempo necessário para completar uma órbita e a distância em relação ao Sol.

    Não há resposta fácil para explicar por que Kepler era tão compelido a amarrar sua teoria aos seus dados, ou, como diz Sagan, a “combinar imaginação com observação”. Talvez fosse seu respeito inabalável pelos dados de Tycho Brahe. Ou alguma particularidade de sua mente analítica. Ou ainda o fato de que a Reforma alterou dramaticamente a validade das verdades sagradas e imutáveis.

Astronomia Nova, de Kepler — exemplar da primeira edição do livro de Johannes Kepler.
Imagem: Casey Dreier

    Seja qual for a razão, o importante é que ele o fez. Foi essa ligação entre teoria e mundo real que abriu a porta para que Newton, nascido 12 anos após a morte de Kepler, levasse essa concepção adiante. Partindo da ideia de que a matemática descreve os padrões da natureza, ele desenvolveu o conceito de gravidade, unindo as forças terrestres aos céus, até então considerados inalcançáveis. Sem me aventurar demais na especulação histórica, arriscaria dizer que Newton não teria desenvolvido tanto quanto desenvolveu sem o trabalho revolucionário de Kepler.

    O programa faz um trabalho razoável ao apresentar a história de Kepler. As reconstituições históricas talvez sejam um pouco limpas demais para aquela época — literalmente, Kepler não gostava de tomar banho —, e o nariz dourado de Brahe poderia ter recebido um pouco mais de cuidado, mas a história é bem contada e envolvente. Ela termina em tom melancólico, com Kepler vagando pelo campo, já velho, sem jamais ter alcançado seu sonho de descobrir a verdadeira teoria geométrica do universo. Mas, como eu disse antes, é na verdade uma bela história. Ele triunfou sobre a época em que viveu. Pôs em movimento uma sequência de acontecimentos que, no fim das contas, fez mais para reduzir a miséria no mundo do que qualquer um poderia ter imaginado. Ele deu início à revolução tecnológica.

    A tecnologia, claro, depende da ciência que nasce da observação cuidadosa. O conceito de coletar dados e confrontá-los com a teoria está hoje tão profundamente arraigado em nós que é fácil esquecer que isso precisou ser inventado. Sagan chama Kepler de “a centelha que iniciou a revolução científica”, mas penso que isso não está inteiramente correto. Copérnico foi a centelha. Kepler foi a primeira chama brilhante — em espírito e em intelecto — a rasgar a casca ressequida do pensamento medieval, permitindo que a mente renascesse.

OBSERVAÇÕES:

  • Kepler estava bem no meio da Guerra dos Trinta Anos (1618 - 1648) , que, segundo algumas estimativas, massacrou a população local em níveis comparáveis aos da Segunda Guerra Mundial. Era um tempo brutal para estar vivo. Mas há algo de belo no fato de que suas ideias revolucionárias tenham brotado de um período tão miserável da história humana — algo verdadeiramente inspirador. Mesmo nos tempos mais sombrios de nossa civilização, a mente ainda pode florescer, embora raramente.
  • Minha esposa observa — com razão — que o episódio quase não dedica tempo algum a Tycho Brahe, sem o qual Kepler jamais teria tido os dados necessários para fazer suas descobertas. Além disso, Tycho provavelmente seria muito mais divertido para se conviver.
  • Estatisticamente falando, deve existir algum planeta com uma civilização que jamais avançou além da física medieval. As distribuições das órbitas de seus planetas irmãos simplesmente coincidiram, por acaso, com algum padrão geométrico arbitrário e agradável.
  • No rápido desvio até as ruínas do povo Anasazi, no Novo México, temos outra resposta à pergunta do “e daí?”. A astronomia estava incorporada à vida cotidiana, servindo como marcadora do tempo para atividades fundamentais: plantio, colheita e rituais religiosos. Ela era profundamente importante para a vida dos povos antigos. Como é estranho, de certo modo, que, à medida que nossa tecnologia avançou, nossa conexão direta com as estrelas tenha enfraquecido, chegando ao ponto de obscurecer sua própria existência sob o brilho de céu urbano, como uma televisão sintonizada em canal morto.
  • Há uma ironia fundamental na vida de Kepler. Ele trabalhou por décadas para compreender os movimentos dos planetas, descobrindo ao longo do caminho suas três leis do movimento planetário, tudo isso a serviço de sua tese incorreta de que o espaçamento das órbitas planetárias era determinado pelas formas dos cinco sólidos perfeitos. Ele criou a ciência da astronomia quase por acidente.
  • Um grande livro sobre Kepler é The Sleepwalkers, de Arthur Koestler. Embora eu suponha que não seja historicamente exato em todos os detalhes, é uma agradável de ler.

CITAÇÕES:

“Um lembrete das 40 mil gerações de homens e mulheres pensantes que nos precederam, sobre os quais nada sabemos, mas sobre os quais nossa sociedade está assentada.”

“O desejo de estar conectado ao cosmos reflete uma realidade profunda. Estamos conectados, não da maneira trivial prometida pela pseudociência da astrologia, mas das maneiras mais profundas.”

“Estas são conhecidas como leis, algumas das quais já nos são conhecidas.”

*Originalmente por Casey Dreier em Planetary Society
Traduzido e publicado com autorização.

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