| “Cosmos com Cosmos” é uma série de publicações composta por ensaios de Casey Dreier, originalmente publicados pela The Planetary Society e traduzidos com autorização da instituição. Os textos convidam o público a assistir e revisitar Cosmos, a clássica série apresentada por Carl Sagan. |
Frequentemente me pedem que eu justifique o estudo do sistema solar diante dos problemas maiores do mundo. Há uma estranha hostilidade contra gastar dinheiro e tempo com esse campo aparentemente esotérico, ou com o envio de uma sonda robótica a um corpo planetário. E há também aqueles que simplesmente dão de ombros e dizem “e daí?” quando o assunto é astronomia.
Isso é um problema enorme, enorme mesmo — e não apenas na astronomia e na ciência planetária. Se a maioria do público não percebe um benefício — ou sequer uma conexão — com a ciência, então corremos o risco de perder o apoio institucional que sustenta esse extraordinário avanço do conhecimento humano, em cuja época temos a sorte de viver.
Cosmos, como série, é uma refutação aos “e daí?” do mundo. Ela celebra as conexões entre os indivíduos e o universo, entre os avanços tecnológicos e as centelhas que os impulsionaram, e o modo como a astronomia serviu de força motriz do mundo moderno.
Sagan afirma isso de maneira bastante direta na metade do episódio, ao explicar o movimento aparente dos planetas no céu noturno (ênfase minha): “A verdadeira solução é que os planetas são mundos, que a Terra é um deles, e que todos giram em torno do Sol segundo leis matemáticas precisas. Essa descoberta levou diretamente à nossa moderna civilização global.”
O Episódio 3, “A Harmonia dos Mundos”, demonstra exatamente como isso ocorreu, embora trate da questão de forma um pouco mais oblíqua do que eu preferiria. A manifestação humana concreta desse momento constitui o coração e a alma do episódio: Johannes Kepler, um homem corajoso, contraditório e brilhante, vivendo em um tempo de sordidez e conflito.
Mas o episódio começa com um foco na astrologia, um vírus memético que infecta o pensamento humano há milhares de anos.
Sagan demole alegremente a pseudociência da astrologia, e não apenas com argumentos fortes e lógicos, mas também ao destacar a estreiteza provinciana desse campo. A sequência que contrasta a magnífica estranheza dos planetas com seus dublês astrológicos é belissimamente feita. A natureza “régia” do Júpiter da astrologia empalidece diante dos ventos violentos de sua Grande Mancha Vermelha, três vezes maior que a Terra. Por que escolher a astrologia, quando a realidade astronômica é muito mais grandiosa?
A astrologia é, em certo sentido, maravilhosamente humana. Ela condensa nossas contradições e inseguranças mais profundas: a necessidade de nos sentirmos importantes e, ao mesmo tempo, impotentes diante do destino; o desejo de conhecer o futuro para que possamos alterá-lo; a vontade de explicar nossos defeitos, mas também de reivindicar mérito por nossas capacidades. Ela é o inverso da astronomia moderna. Na astrologia, somos os personagens principais; na astronomia, espectadores insignificantes diante do grande destino cósmico.
Deixamos a astrologia para trás e vemos Sagan no deserto, acendendo uma fogueira — um belo momento simbólico —, enquanto ele nos introduz à ideia de previsibilidade por trás de certos comportamentos físicos no mundo. Essa ideia de previsibilidade, como discuti no comentário sobre o Episódio 1, é o fundamento mesmo da ciência — é a razão de termos um cosmos (ordem), e não um caos.
Quando Sagan dirige nosso olhar para o céu noturno, vemos entre as estrelas a constelação familiar da Ursa Maior. Mas então um novo padrão de linhas sobre essas mesmas estrelas cria algo estranho ao nosso olhar. Os padrões que se seguem, ainda mais. Exibir constelações alternativas sobre o mesmo conjunto de estrelas da “Ursa Maior” é também um ataque sutil à astrologia, além de um importante lembrete de nosso próprio chauvinismo cultural.
As constelações costumam nos ser ensinadas ainda na infância. Para muitas pessoas, sua educação em astronomia termina aí. É isso que levam consigo para a vida adulta. São as constelações que as pessoas sempre perguntam nas observações do céu em grupo ou durante noites escuras ao redor das brasas incandescentes de uma fogueira. As pessoas internalizam ideias ensinadas quando crianças e, como Sagan sugere, esses padrões criados por seres humanos podem acabar sendo confundidos com a própria ciência da astronomia. Mas eles são projeções arbitrárias da cultura humana sobre o céu acima de nós. Não há razão para que tenham exatamente as formas que têm, além do fato de compartilharmos certa herança cultural com os primeiros povos que lhes atribuíram essas interpretações. Tragicamente, aquilo que a maioria das pessoas sabe sobre o céu noturno é justamente sua característica menos importante — e menos científica.
| Constelação egípcia antiga da Ursa Maior — uma das interpretações mais criativas desse mesmo conjunto de estrelas que conhecemos como o “Grande Carro”. Imagem: Cosmos. |
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