sábado, junho 06, 2026

Cosmos com Cosmos: Episódio 07 (A Espinha Dorsal da Noite)

 

“Cosmos com Cosmos” é uma série de publicações composta por ensaios de Casey Dreier, originalmente publicados pela The Planetary Society e traduzidos com autorização da instituição. Os textos convidam o público a assistir e revisitar Cosmos, a clássica série apresentada por Carl Sagan.

    O episódio 7 de Cosmos, A Espinha Dorsal da Noite, começa não com estrelas, mas com a Ponte Verrazano–Narrows, que liga Staten Island ao Brooklyn. Como nos episódios anteriores, estamos nos movendo em direção a algo, em direção ao lar. Mas, em vez de virmos do espaço profundo em direção à Terra, estamos seguindo Sagan de volta para sua casa — suas origens — no Brooklyn.

    O episódio também trata de outra origem, que é um dos temas centrais de toda a série: a ideia de que o universo é compreensível, que ele segue leis que estamos apenas começando a entender, e que essa busca pelo conhecimento nos leva a compreender melhor a nós mesmos e à nossa espécie.

    Depois de uma sequência de episódios que foram principalmente expositivos, achei revigorante retornar à tese central do programa: como o caos se tornou cosmos. Diferentemente de alguns episódios anteriores, há pouco conteúdo dispensável, as transições entre os temas são suaves, e os segmentos estão repletos de especulações cuidadosas, discussões e ideias intrigantes. Este é o melhor episódio da série até agora.

    O programa se autointitula “Uma Viagem Pessoal”, mas raramente vimos tanto da biografia de Sagan incorporada à narrativa. Esse recurso importante — o fato de que nosso narrador é humano — ajuda a nos conectar como espectadores, permitindo que nos reconheçamos na história de Sagan, que, em alguns aspectos, também é a nossa. Cada um de nós pode recordar um momento da juventude em que o mundo pareceu crescer, em que o mundo se revelou muito mais grandioso do que nossa experiência limitada permitia imaginar. Construir uma experiência compartilhada é crucial: isso nos oferece um ponto de apoio para o grande paralelo temático deste episódio, isto é, o fato de que nós mesmos, como espécie, vivenciamos um crescimento semelhante na compreensão do mundo.

    A narrativa paralela entre a infância de Sagan e a compreensão humana do cosmos é sutil e muito bem construída. Pensemos: quando Sagan era jovem, seu mundo era pequeno — apenas alguns quarteirões na região de Bensonhurst, no Brooklyn. Ele podia ver as estrelas à noite. Elas despertaram sua curiosidade, levando-o para além dos limites de seu pequeno universo e em direção a um novo bairro, onde havia uma biblioteca. Nossos antigos ancestrais humanos também pensavam que seu mundo era pequeno, que era único, que todos os deuses e todos os movimentos das estrelas no céu estavam voltados para eles. Mas as estrelas nos chamaram, puxando-nos para além do mundo conhecido em direção a um conhecimento maior, levando-nos a nos encontrar dentro de “algo muito mais grandioso” do que jamais teríamos imaginado.

    Estamos passando por um momento instigante e decisivo da história humana, com uma emocionante apresentação dos antigos cientistas gregos e de suas diversas realizações. Os antigos gregos criaram as bases da ciência moderna, do drama, da linguística, da retórica e da política. Suas especulações — especialmente as equivocadas — influenciariam profundamente o mundo ocidental pelos 2.500 anos seguintes. Nada mal para uma coleção relativamente solta de cidades-Estado ao longo de alguns séculos.

    Sagan argumenta que esse “glorioso despertar” surgiu como uma resposta prática aos problemas enfrentados por cidades mercantis semi-isoladas. Uma mistura intensa de ideias, crenças e riquezas fervilhava em uma região distante dos poderes estabelecidos e opressivos. Sagan desenvolve essa ideia na versão em livro de Cosmos, afirmando que, dado tempo suficiente, a ciência provavelmente surgiria em muitas civilizações, mas precisava acontecer primeiro em algum lugar.

    É possível ouvir a empolgação na voz de Sagan enquanto ele apresenta aquela que talvez seja a ideia mais importante da história humana:

    “Argumentava-se que o universo era cognoscível. Por quê? Porque era ordenado, porque há regularidades na natureza que permitiam que seus segredos fossem revelados. A natureza não era inteiramente imprevisível; havia regras às quais até ela precisava obedecer. Esse caráter ordenado e admirável do universo foi chamado de cosmos.”

    É disso que se trata. Essa é a chave de todos os benefícios do mundo moderno. O universo é compreensível. Sem qualquer previsibilidade, viveríamos em um caos aterrorizante, completamente submetidos a forças além de nossa compreensão, podendo apenas fazer tentativas desesperadas de apaziguá-las.

    Mas, se existem leis universais às quais até a natureza obedece, não há razão para aderir a regras prescritivas impostas por sacerdotes para agradar aos deuses, porque os deuses não são aqueles que comandam o espetáculo. Isso retira um enorme peso de nossas costas: desastres, pragas e outras calamidades deixam de ser resultado direto de nossas próprias ações. Somos libertados da necessidade de apaziguar seres caprichosos que, a qualquer momento, poderiam se irritar e alterar o comportamento do mundo. Como isso é libertador. Como isso é poderoso.

    Mas, para muitas pessoas, isso pode ser ainda mais assustador do que os próprios deuses. Se a natureza é uma consequência física de leis básicas que governam o comportamento da matéria e da energia, então os seres humanos são deslocados do centro. Não há como apaziguar a natureza; ela é impiedosa. Alguns prefeririam escolher um caos que talvez possam persuadir a um cosmos no qual são meros espectadores.

    É claro que essa primeira era de protociência foi temporária. Muitas ideias foram reprimidas e perdidas. O que sabemos sobre elas chegou até nós por relatos de segunda mão ou por fragmentos gastos de pergaminhos. Desse mesmo solo fértil também nasceu a ideia de uma divisão entre o mundo natural e o pensamento. As ideias de Platão e Aristóteles sobre um mundo natural corrompido, separado da perfeição distante dos céus, dominaram o pensamento ocidental por milhares de anos. Somente com Kepler a observação voltou a se encontrar com a teoria.

A Via Láctea (a espinha dorsal da noite) sobre o Vale de Yosemite. Essas estrelas têm chamado os seres humanos desde o alvorecer de nossa espécie, despertando o melhor e o pior de nós. Neste momento, nossas melhores tendências estão prevalecendo. Imagem: Tyler Nordgren.


    Sagan argumenta que o pecado da escravidão foi, em última instância, responsável pela supressão dessas ideias novas e ousadas. Penso que há um argumento convincente aí. Mas também sinto que isso foi consequência de tendências humanas ao narcisismo, à autoimportância, ao poder e à opressão. É muito mais satisfatório ser a pessoa mais importante da sala. Naturalmente buscamos atenção e afirmação. Como é agradável imaginar que cada movimento nos céus acontece para nos influenciar? Um universo pequeno nos faz sentir maiores em comparação.

    Suponho que é aqui que os paralelos entre o desenvolvimento do indivíduo — da criança ao adulto — e o desenvolvimento da sociedade — do caos ao cosmos — começam a se desfazer. Em geral, nosso desenvolvimento pessoal é relativamente constante e voltado para frente. Tendemos a não esquecer, por exemplo, que aprendemos sobre a verdadeira natureza das estrelas. Mas nossa cultura avançou aos trancos e barrancos: às vezes para frente, muitas vezes para trás. Não há garantia de que os avanços conquistados hoje permanecerão amanhã. As estrelas podem nos chamar para um universo mais grandioso, mas não necessariamente nos manterão lá.

    Mais adiante na série, Sagan destaca a importância de ser um “cidadão do cosmos”. Isso não significa apenas ser cosmopolita ou bem-informado. Penso que ser um cidadão do cosmos é estar comprometido com o cosmos — com a ideia de que existe uma ordem subjacente à natureza, de que nosso universo deve ser mais grandioso, e de que nós devemos nos sentir menores dentro dele. Isso exige que nos coloquemos contra o caos, contra nossos demônios interiores do narcisismo, da insegurança e da autoimportância percebida, que permanecem sempre prontos para devorar as conquistas do conhecimento arduamente obtidas.


OUTRAS OBSERVAÇÕES:

  • Uma lembrança de minha infância, de quando o mundo se tornou maior, foi perceber que o Centro de Pesquisa Ames da NASA não ficava a algumas horas de distância, em Ames, Iowa, mas na Califórnia.
  • Um belo detalhe: a narração apresenta Platão como seguidor de Pitágoras enquanto vemos a sombra de Sagan projetada na parede de uma caverna.
  • Carl Sagan não parece simplesmente o maior professor de Ciências que uma escola poderia ter?
  • Eu realmente adoro o segmento especulativo que explora a mente de um ser humano antigo contemplando as estrelas. O livro amplia bastante esse trecho. É um lembrete importante de que dependemos inteiramente do vasto conhecimento acumulado de nossa espécie. Os seres humanos antigos tinham as mesmas capacidades que nós, os mesmos sentimentos que nós, mas precisavam se encolher sob o medo opressivo do desconhecido.
  • Acho irônico que Pitágoras tenha cunhado o termo cosmos. Quanto mais aprendi sobre os pitagóricos ao longo dos anos, mais passei a desprezá-los. Eles eram uma seita desagradável e secreta, que carrega a distinção repugnante de ter ajudado a sufocar os primeiros esforços da humanidade para compreender verdadeiramente o mundo natural.

CITAÇÕES:

“Cada um de nós começa a vida com uma mente aberta, uma curiosidade intensa, um senso de maravilhamento.”

“Em nossas vidas pessoais, viajamos da ignorância ao conhecimento. Nosso crescimento individual representa o avanço da espécie. A exploração do cosmos é uma viagem de autodescoberta.”


*Originalmente por Casey Dreier em Planetary Society
Traduzido e publicado com autorização.

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