sábado, maio 30, 2026

Cosmos com Cosmos: Episódio 06 (História de Viajantes)

 

“Cosmos com Cosmos” é uma série de publicações composta por ensaios de Casey Dreier, originalmente publicados pela The Planetary Society e traduzidos com autorização da instituição. Os textos convidam o público a assistir e revisitar Cosmos, a clássica série apresentada por Carl Sagan.


    Os neandertais não se aventuravam muito longe. Fora dos assentamentos conhecidos na Europa e no leste da Rússia, nenhum vestígio deles foi descoberto em qualquer outro lugar. Parece que lhes faltava certo ímpeto para a exploração e a expansão.

    O Homo sapiens, por outro lado, espalhou-se por todos os nichos e cantos do planeta. Fomos além disso, inclusive, explorando a Lua e criando habitats semipermanentes em órbita da Terra. Onde a tecnologia ou o custo nos impedem de ir mais fundo no espaço, não desistimos — enviamos emissários robóticos em nosso lugar. Parece haver em nossa espécie um poderoso desejo de avançar para fora e explorar. Essa estranha compulsão é o que “caracterizou e distinguiu a espécie humana”, como diz Sagan no início deste episódio. Foi isso que nos levou a criar missões como as Voyager, que se aventuram na imensidão para jamais retornarem.

O Retrato do Sistema Solar. A última visão da Voyager 1, olhando para trás, em direção a todos os planetas do Sistema Solar. Imagem: NASA / JPL

    Os neandertais não tiveram nenhuma Voyager, nenhum navio à vela, nenhum grande feito de exploração. Foram extintos, junto com todas as outras espécies humanas, vítimas da mudança climática e da competição com o Homo sapiens. A nossa espécie seguiu adiante e conquistou o planeta. Criamos as Voyager e as outras espaçonaves que exploram o Sistema Solar. Por que nós?

    O Episódio 6 de Cosmos, História de Viajantes, não tenta responder a essa pergunta. Ele prefere celebrar a ideia de que “a paixão por explorar está no coração do ser humano”. Todos nós precisamos ser lembrados disso de vez em quando, especialmente hoje, quando nossa segurança, riqueza e conforto recém-conquistados trabalham para nos dissuadir do custo e do risco da exploração — seduzindo-nos lentamente para o mesmo destino do pobre Homo neanderthalensis.

    História de Viajantes é uma continuação temática do Episódio 5, Blues do Planeta Vermelho, embora eu ache que funcione melhor como uma peça televisiva de uma hora. Tanto a Voyager quanto a Viking fincavam raízes profundas em nossa cultura e em nossa história comum. Ambas exemplificavam o que temos de melhor, representando uma pureza de visão. Diferentemente das missões históricas de exploração marítima, tanto a Viking quanto a Voyager não foram manchadas pela ganância, pela guerra, pela doença e pela conquista. Suas missões eram pacíficas; seus objetivos, científicos. Eu diria que a Voyager acabou se tornando a mais famosa das duas. Ela revelou um número muito maior de mundos novos e instigantes, paisagens mais estranhas, e continua operando até hoje. Ela também se inscreve numa linhagem histórica mais ampla do que a Viking, o que torna sua história ainda mais profunda.

    O episódio começa com uma referência ao nosso primeiro episódio. Começamos do lado de fora e olhamos para dentro, viajando do Sistema Solar exterior em direção ao Sol, encontrando a Terra — e a nós mesmos — no fim da jornada. Mas, em vez de saltar para a história, Sagan nos leva ao presente — como era em 1979, isto é — com uma visita ao interior do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, fumaça de cigarro e tudo mais, no momento em que os cientistas recebiam dados enquanto a Voyager 2 passava por Júpiter, em 1979.

    Traçam-se paralelos bastante fortes entre as sondas Voyager e os navios à vela da segunda grande era das explorações, quando a Europa passou a dominar boa parte do mundo. Ambos os tipos de embarcação viajaram grandes distâncias ao longo de muitos anos, ambos exploraram novas terras, e ambos retornaram com relatos de aventura e descoberta.

    Ao contrário dos marinheiros, porém, os relatos trazidos pela Voyager são sempre verdadeiros. Não há montanhas fantasiosas, mal lembradas, escondidas na névoa de Titã, nem criaturas cintilantes vistas depois de uma noite embebida em rum, olhando fixamente para as nuvens de Júpiter. A Voyager apenas transmitiu os dados com uma sobriedade fria, deixando a nós, com nossa imaginação, a tarefa de tecer interpretações fabulosas sobre mundos de gelo e fogo e crostas despedaçadas.

    Depois de destacar o Iluminismo holandês e sua sociedade notavelmente aberta e aventureira, temos um breve vislumbre do grande cientista Christiaan Huygens, que descobriu os anéis de Saturno. Vemos seus esforços concentrados para observar através dos telescópios recém-desenvolvidos da época, lutando para compreender os novos mundos que via. Em seguida, somos levados de volta ao JPL (Laboratório de Propulsão a Jato, da NASA), onde vemos outro grupo de cientistas tentando compreender os novos mundos

    Essas duas espaçonaves continuariam funcionando muito além do que Sagan — ou qualquer outra pessoa — teria previsto. No ano passado (2012), participei do evento de 35º aniversário da The Planetary Society, celebrando a missão Voyager com seu cientista principal, Ed Stone. A Voyager 2 não apenas continuou rumo a Urano e Netuno, como ambas seguiram em direção ao espaço interestelar. As duas ainda enviam informações por rádio, e a Voyager 1 já entrou no espaço interestelar. Embora apenas alguns instrumentos ainda funcionem, elas ainda carregam consigo o disco de ouro, sua mensagem de boas-vindas, a forma de nossa espécie dizer: “nós estivemos aqui.” [Veja o comentário do Tradutor ao final da tradução].

    Svante Pääbo é diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, onde se especializa no sequenciamento do DNA de criaturas antigas. Ele frequentemente se pergunta por que os seres humanos foram impulsionados a explorar, enquanto os neandertais não.

    Há um argumento convincente de que nosso impulso de explorar — que Pääbo chama de nossa “loucura” — está relacionado a uma série de mutações genéticas exclusivas dos seres humanos. Variantes do gene DRD4, por exemplo, têm sido associadas à inquietação e à disposição para assumir riscos, e Pääbo acredita que isso representa as mutações que fizeram de nós o tipo de espécie que olha para um oceano sem fim e pensa: “vamos ver o que existe lá fora.”

    Não acho que alguém acredite seriamente que nosso impulso de explorar seja obra de um único gene, mas consigo entender como um conjunto de mutações em vários genes poderia aumentar essa tendência e, com isso, ampliar sua probabilidade de reprodução. Ao avançarmos para novos lugares, exploramos nichos biológicos ainda intocados para nós. Enfrentamos animais que não evoluíram para nos caçar. O “software” flexível de nossos cérebros poderia se adaptar mais rapidamente a novos ambientes e, ao fazer isso, os próprios novos ambientes selecionariam nossas adaptações, tornando-nos ainda mais flexíveis. O impulso de exploração e expansão, nesse sentido, pode ser considerado um fenótipo — a expressão física de um gene ou de um conjunto de genes em um organismo.

    Mas os fenótipos não representam apenas características físicas. Richard Dawkins ampliou esse conceito com sua teoria do fenótipo estendido, que corresponde a qualquer característica ou expressão no mundo que ajude na sobrevivência desses genes, independentemente de ela estar ou não no mesmo corpo dos próprios genes.

Voyager 2 no vento solar. Esta concepção artística mostra a venerável espaçonave Voyager 2 seguindo sua jornada para fora do Sistema Solar a 15 quilômetros por segundo — cerca de 34.000 milhas por hora — enquanto o vento solar passa por ela a uma velocidade quatro vezes maior. Imagem: NASA/GSFC, imagem conceitual. 

    Pensando desse modo, as Voyagers são o fenótipo estendido definitivo de nossa espécie. Alguns genes mutados nos corpos de nossos antigos ancestrais, há centenas de milhares de anos, encontraram sua expressão no metal endurecido e nas placas douradas dessas espaçonaves. Nossos desejos expansionistas e exploratórios talvez sejam uma de nossas características evolutivas mais importantes, talvez nos conduzindo para fora deste planeta e em direção a outro, salvando-nos da posição vulnerável em que nossa espécie se encontra.

    Os neandertais não tinham esse desejo e pagaram caro por isso. Seus genes não os levaram muito além de quase nada. Nossos genes nos dão uma predisposição para explorar, mas precisamos escolher conscientemente fazê-lo. Vimos, tanto na cultura quanto na biologia, que grupos pouco curiosos e cautelosos morrem, enquanto os ousados prosperam. Em que sociedade você preferiria viver: uma que olha para fora ou uma que olha para dentro? À medida que os orçamentos da NASA diminuem e nos vemos justificando a exploração como algo caro demais, Sagan nos lembra aqui que devemos a nós mesmos abraçar o presente que nossos genes nos concederam.

ATUALIZAÇÕES CIENTÍFICAS:

  • Basicamente, toda a sequência final sobre os planetas exteriores ficou desatualizada à medida que a Voyager continuou sua trajetória para além de Saturno, rumo a Urano e Netuno. Também tivemos os benefícios da sonda Galileo orbitando Júpiter e da Cassini orbitando Saturno, com as imagens espetaculares enviadas pela sonda Huygens da superfície de Titã. Em Titã, não apenas chovem hidrocarbonetos — eles se acumulam em lagos!
  • Europa continua sendo foco de estudo intenso, embora nenhuma missão tenha sido ainda dedicada exclusivamente a ela. Isso pode mudar nos próximos 10 anos, caso a NASA consiga financiar a missão Europa Clipper, destinada a determinar as características de seu oceano subterrâneo — oceano que, ao que parece, eles ainda não sabiam que existia quando esta cena foi filmada. E como saberiam?
  • A Cassini, que Sagan menciona, chegou a Saturno em 2004 e continua em operação até hoje. Só consigo imaginar o quanto ele teria amado as imagens enviadas por essa missão.

OUTRAS OBSERVAÇÕES:

  • Grande parte deste artigo e de minhas reflexões sobre a Voyager, de modo geral, é profundamente influenciada pelo excelente livro de Stephen Pyne, “Voyager: Exploration, Space, and the Third Great Age of Discovery”. A obra adota uma importante perspectiva filosófica sobre a Voyager e seu lugar na história — uma abordagem singular entre os livros sobre essa missão.
  • Adoro a cena em que Sagan descreve a tecnologia no JPL. Como era 1980, ele precisava explicar pixels, discos rígidos e outros elementos básicos da computação que hoje tomamos como óbvios. Além disso, basta olhar para o tamanho daqueles discos rígidos! Aposto que armazenavam centenas de kilobits!
  • Falando em tecnologia antiga, dá para ouvir como aquela sala de computadores era barulhenta?
  • A convicção firme e verdadeira de Sagan de que uma grande sociedade é definida por sua abertura a novas ideias aparece de maneira bastante clara aqui, em sua descrição da Holanda do século XVII. Temos tudo a ganhar ao abraçar a exploração e assimilar as novas informações que ela nos impõe.
  • Também adoro como Cosmos mostra o fio ininterrupto entre os astrônomos holandeses do século XVII e as espaçonaves robóticas modernas. O significado de tudo isso se torna muito maior quando visto como uma pequena parte de um todo.
CITAÇÕES:

  • “A paixão por explorar está no coração do que significa ser humano. Esse impulso de partir, ver e conhecer encontrou expressão em todas as culturas.”
  • “Quanto mais aprendemos sobre outros mundos, melhor compreendemos o nosso próprio. Especulamos, criticamos, debatemos, calculamos, refletimos e nos maravilhamos. Retornamos, repetidas vezes, aos dados assombrosos e, lentamente, começamos a compreender.”

Comentário do tradutor: A Voyager 1, em 2025, encontrava-se a aproximadamente 25 Bilhões de quilômetros da Terra, viajando na Velocidade da Luz (300.000 km/s o tempo de comunicação dela com a Terra é de 23h20min. E quanto a Voyager 2, em 2018 deixou a heliosfera, "os limites do sistema solar", e em 2025 estava cerca de 21 Bilhões de quilômetros, ou com sinal de rádio levando próximo de 19h o Pioneirismo de ambas levaram a primeira e a segunda saírem do sistema solar, 2012 e 2018, respectivamente. Ainda em 2025, ambas as sondas, continuavam a realizar comunicação com a Terra, portanto aumentando ainda mais a surpresa dos cientistas desde que a publicação original foi feita em 2013.

*Originalmente por Casey Dreier em Planetary Society

Traduzido e publicado com autorização.

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