sábado, maio 23, 2026

Cosmos com Cosmos: Episódio 05 (O Blues do Planeta Vermelho)

“Cosmos com Cosmos” é uma série de publicações composta por ensaios de Casey Dreier, originalmente publicados pela The Planetary Society e traduzidos com autorização da instituição. Os textos convidam o público a assistir e revisitar Cosmos, a clássica série apresentada por Carl Sagan.

Espero que não haja vida em Marte hoje.

    Se encontrássemos vida se agitando pela superfície marciana, a humanidade chegaria — ou deveria ir até lá? — à decisão moral inevitável de isolar o planeta de futuras explorações: seria irresponsável alterar o progresso evolutivo dessa outra forma de vida. (E se espaçonaves robóticas tivessem pousado na Terra há três bilhões de anos trazendo alguns micróbios caroneiros e famintos?) Diante dessa forma de vida única, Marte se tornaria uma vasta área selvagem protegida. Os seres humanos, hospedeiros de um panteão de comunidades bacterianas, ficariam para sempre proibidos de pôr os pés no Planeta Vermelho.

    Mas nós precisamos de Marte como uma base externa de contingência para a humanidade. Por isso, minha esperança é que o Marte de hoje seja um mundo estéril, pronto para futura exploração e, eventualmente, habitação permanente. Idealmente, encontraríamos evidências de vida passada em Marte, estimulando a pesquisa científica e a revelação filosófica, e então continuaríamos a busca por vida nas profundezas aquosas das luas dos planetas exteriores. Os humanos jamais poderiam colonizar Europa ou Encélado, então que a vida exista ali em vez disso.

    Mas Marte se destaca em nos negar nossos desejos mais ardentes. Desde não se encaixar nos epiciclos de Ptolomeu, até não possuir os canais de Lowell, até não fornecer materiais orgânicos (ainda) para a equipe do rover Curiosity, a realidade de Marte tem irritado a humanidade de forma consistente ao longo da história.

    No quinto episódio de Cosmos, Blues do Planeta Vermelho, Sagan destaca as maneiras pelas quais Marte que existe subverte o Marte que acreditávamos que exista. Nesse sentido, é uma continuação temática do Episódio 3, A Harmonia dos Mundos, no qual Marte impulsionou o desenvolvimento da astronomia como ciência por meio da provocação incessante a Johannes Kepler para que desvendasse os segredos de seu movimento pelo céu.

    Este episódio também revela algo que claramente é uma paixão pessoal de Sagan. Influenciado desde a infância pelas histórias fantásticas de Edgar Rice Burroughs, Sagan amava Marte. Desejava profundamente descobrir vida ali, mas Marte lhe negou a satisfação disso, ao mesmo tempo mantendo viva uma pequena esperança ao insinuar um passado de água líquida e habitabilidade.

    Talvez seja justamente essa paixão pessoal pelo Planeta Vermelho que faça o episódio sofrer como uma hora de televisão. Eu o considero o episódio mais fraco da série até aqui, carente de impulso narrativo, de construção dramática e daquela engenhosa “interconexão” que ganha vida de maneira tão bonita nos episódios anteriores.

    A sequência de abertura, com a leitura de A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, sobre uma cena bucólica da vida do século XIX, é ao mesmo tempo previsível e longa demais, como se precisassem preencher tempo para alcançar a marca de uma hora de episódio. Eu teria preferido uma exploração mais profunda da relação entre a fantasia da invasão e a crescente influência do Império Alemão na Grã-Bretanha pré-Primeira Guerra Mundial, e de como isso subvertia a confiança crescente da humanidade em seu controle sobre o próprio destino durante o final do período industrial. Aqui, os marcianos foram derrotados não por algo que os humanos pudessem criar, mas pelas próprias doenças que assombravam nossa espécie havia milhões de anos.

    Os marcianos malévolos da imaginação de Wells evoluíram, em grande parte, para os remanescentes agonizantes de uma raça outrora próspera, inspirada nos canais de Percival Lowell. Nessa visão, os canais são entendidos como uma obra desesperada de engenharia para combater a mudança climática global. Isso leva a uma das sequências de efeitos visuais mais datadas da série, enquanto sobrevoamos uma representação artística das antigas cidades marcianas ao som arrebatado de Marte, de Holst.

    Lowell, é claro, é famoso por uma teoria que se revelou completamente errada. Os canais em Marte — mapeados em detalhe ao longo de muitos anos de trabalho árduo — eram projeções de seus sonhos sobre o globo borrado desse planeta distante. Não havia canais, nem uma raça agonizante de marcianos. Mais uma vez, Marte negava à humanidade a satisfação que ela desejava.

    A ideia de Lowell, apesar de equivocada, era profundamente romântica e carregada de apelo dramático. Da série John Carter até a influência marciana da própria infância, Crônicas Marcianas, de Bradbury, a história da raça moribunda persistiu. E, embora a maioria das pessoas compreendesse que se tratava de fantasia, o conceito artístico de Marte se aninhou profundamente em nossa psique.

    A segunda metade do episódio melhora quando o foco se desloca para a exploração real de Marte. Sagan, apropriadamente, dedica um bom terço do programa às sondas Viking — a missão de exploração planetária mais ambiciosa e cara até então (e há um bom argumento de que isso talvez ainda continue sendo verdade).

Curiosity na Cratera Gale. Rastros seguem em direção ao horizonte, deixados por uma máquina exploradora na superfície do planeta vermelho. O rover Curiosity, da NASA, é a materialização da verdadeira exploração marciana com a qual Sagan apenas sonhava. Imagem: NASA / JPL / MSSS / Damia Bouic


    Mais uma vez, Marte tratou de negar as expectativas da humanidade. Embora ambas as Viking tivessem experimentos engenhosos para buscar vida, produziram, na melhor das hipóteses, resultados ambíguos. Em vez de fornecer com clareza um “sim” ou um “não” à pergunta “há vida em Marte hoje?”, Marte nos disse: provavelmente não... mas talvez.

    Como Cosmos foi feita em 1980, Sagan não tinha como saber que as Viking seriam a última missão bem-sucedida a Marte por quase 20 anos. A década de 1980 viu profundos cortes no orçamento da NASA, que atingiram em cheio o programa de exploração planetária. Apesar dos indícios de água no passado e da ciência tentadora que as Viking nos trouxeram, a humanidade decidiu seguir com uma calma quase preguiçosa.

    Tudo isso começou a mudar em 1996, com os lançamentos tanto da Pathfinder quanto da Mars Global Surveyor. Essas missões deram início a um compromisso duradouro com a exploração de Marte. Vimos uma frota de espaçonaves explorar Marte nos últimos vinte anos, culminando no rover Curiosity, muito mais robusto e impressionante do que qualquer rover conceitual mostrado em Cosmos. É um belo fecho para este episódio. Milhões de pessoas acompanham a exploração do Planeta Vermelho, não mais pela tela da televisão, mas na palma da mão. Somos capazes de percorrer as planícies de Marte e, embora o planeta permaneça caracteristicamente complexo e resistente às nossas perguntas, estamos lentamente desvelando o Marte que existe: um mundo que já foi úmido e habitável, mas agora, espera-se, morto, aguardando pacientemente a chegada de uma nova vida.


ATUALIZAÇÕES CIENTÍFICAS:

  • Tanta coisa aconteceu na ciência de Marte desde a exibição deste episódio que nem faz sentido tentar abordar tudo. Tivemos nove missões bem-sucedidas posteriores, que mapearam Marte em detalhes impressionantes e investigaram sua história geológica. Sabemos que Marte já foi habitável para a vida como a conhecemos, mas hoje é um lugar bastante hostil.
  • Os resultados dos experimentos biológicos das sondas Viking podem ser explicados por processos puramente químicos. 
  • As “Pirâmides de Elysium” são muito provavelmente ventifactos — formas moldadas pelo vento soprando na mesma direção durante eras. Isso, claro, não impediu o florescimento de especulações fantasiosas.

OUTRAS OBSERVAÇÕES:

  • Bruce Murray, um dos cofundadores da Planetary Society ao lado de Carl Sagan e Lou Friedman, era bastante cético em relação à existência de vida marciana. Ele e Sagan entraram em conflito publicamente durante anos antes da amizade que levou à fundação da Sociedade. Aqui está uma citação de Murray, em 1971, entoando seu lamento pelo planeta vermelho: “Eu realmente não acho que exista qualquer vida em Marte. Nunca houve evidência disso. Sempre foi apenas uma ideia muito atraente. Você não pode refutar completamente a existência de vida na Lua... Apenas vai se tornando cada vez menos provável. E tornou-se muito menos provável à medida que obtivemos mais informações sobre Marte. Quando se volta para descobrir por que as pessoas pensavam que poderia haver vida lá, isso foi em parte, senão inteiramente, resultado desse pensamento desejante e do tipo de popularização de Edgar Rice Burroughs.”
  • O apelo da civilização marciana moribunda é exemplarmente expresso num dos meus contos favoritos de Bradbury em Crônicas Marcianas, Night Meeting, no qual um humano e um marciano se cruzam através do tempo. O marciano vê seu mundo como ele foi: brilhante e cheio de vida, enquanto o humano o vê como ele é: seco e morto. É assombrador.
  • Não tenho muito a dizer sobre a sequência de Goddard, mas senti um arrepio quando ela corta do vídeo de seus pequenos testes com foguetes para o lançamento do Saturn V.
  • Achei interessante que Sagan não tenha mencionado de forma alguma a exploração humana de Marte na versão original deste episódio, e apenas muito brevemente durante a sequência de “atualização” de Cosmos, filmada em 1990. Isso foi justamente por volta da proposta malfadada do primeiro presidente Bush de enviar seres humanos a Marte.

CITAÇÕES:

“Sou um chauvinista do carbono, admito isso livremente.”

Sobre um rover em Marte: “Ele poderia avançar até o seu próprio horizonte todos os dias; uma formação distante que mal consegue discernir ao nascer do Sol poderia estar sendo sondada e analisada ao cair da noite. Bilhões de pessoas poderiam acompanhar o desenrolar dessa aventura em suas telas de televisão, enquanto o rover explora antigos leitos de rios ou se aproxima cautelosamente das enigmáticas pirâmides de Elysium. Uma nova era de descobertas teria começado.”

“A ciência é um empreendimento colaborativo que atravessa gerações. Quando ela nos permite ver o outro lado de algum novo horizonte, lembramo-nos daqueles que prepararam o caminho, vendo por eles também.”


*Originalmente por Casey Dreier em Planetary Society
Traduzido e publicado com autorização.

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