| “Cosmos com Cosmos” é uma série de publicações composta por ensaios de Casey Dreier, originalmente publicados pela The Planetary Society e traduzidos com autorização da instituição. Os textos convidam o público a assistir e revisitar Cosmos, a clássica série apresentada por Carl Sagan. |
O cometa de Halley causou muitos transtornos ao longo dos anos. Guerras, convulsões políticas, traições, pânico e medo podiam ser esperados como reação a essa pálida faixa de luz estelar que, periodicamente, perturbava o céu noturno previsível.
Mas o encontro de 1986 com o cometa Halley foi diferente. Em vez de saudar o cometa com medo, ele foi recebido com a fria indiferença analítica de seis espaçonaves, representando o interesse apaixonado de milhões de pessoas na Terra. Essas espaçonaves, chamadas de “Armada de Halley”, representavam um esforço conjunto de vários países para estudar todos os aspectos desse cometa problemático.
A Giotto, da Agência Espacial Europeia, e as espaçonaves Vega, da URSS, retornaram imagens em close do cometa Halley pela primeira vez em sua história, puxando a cortina desse vulto aterrorizante para revelar sua verdadeira natureza: um inerte amontoado de gelo e rocha em forma de amendoim.
A ciência dissipou nosso medo. O desconhecido assustador tornou-se o conhecido inofensivo: os cometas apenas passam por nós. Sua influência sobre os acontecimentos humanos não passava das projeções de nossas próprias ações, tão subjetivas e sem sentido quanto os padrões que impomos às estrelas para criar as constelações.
Mas a ciência também trouxe um novo medo — desta vez inteiramente legítimo — de que os cometas e seus primos asteroides têm uma capacidade muito maior de alterar os assuntos humanos do que a mera queda de algum reino local; eles podem destruir toda a civilização humana e até toda a vida na Terra por meio de um grande impacto. O recuo de um medo deu lugar a outro: a insegurança da nossa existência. O conhecimento de que um dia poderemos encarar nossa própria ruína, de que, como diz Sagan, “é improvável em cem anos [mas] inevitável em cem milhões”. Isso espelha o caminho da compreensão da nossa própria mortalidade, o preço inevitável da autoconsciência que há tanto tempo inquieta a condição humana.
O Jardim do Éden da Bíblia hebraica e mitos semelhantes de outras culturas simbolizam essa transição. O conhecimento nos expulsa de nossa existência confortável. Embora, como vimos na reação das pessoas ao aparecimento dos cometas, a ignorância nem sempre seja um paraíso, ela certamente exige muito menos responsabilidade.
No Episódio 4 de Cosmos, Céu e Inferno, Sagan narra a partida de nossa própria civilização desse Éden. Começando com o impacto destrutivo do evento de Tunguska — ainda mais imediato hoje, após Chelyabinsk — e avançando para a guerra nuclear global e a mudança climática, somos lembrados mais uma vez do preço que pagamos por deixar para trás as superstições ignorantes.
Mas isto é Cosmos, então há muito mais para discutir nesta semana do que apenas cometas. Sagan nos conduz por um passeio pelo sistema solar interior, descrevendo a diferença entre os gigantes gasosos e os planetas terrestres. Aprendemos sobre o espectro eletromagnético e vemos uma demolição bastante satisfatória da estranha teoria de Immanuel Velikovsky, segundo a qual Vênus teria sido um “cometa” expelido do planeta Júpiter, responsável por uma variedade de milagres bíblicos da Antiguidade. Suponho que isso fosse uma parte mais destacada do espírito da época quando isso foi filmado originalmente do que é hoje. Se eu tivesse de arriscar, diria que não veremos isso retomado no novo Cosmos.
Uma coisa útil na teoria de Velikovsky é que ela fornece a ponte temática entre os cometas e Vênus (obrigado, Velikovsky!), e assim podemos passar algum tempo apreciando o inferno que é nosso vizinho próximo, Vênus.
Há um número surpreendente de pessoas que não percebem que os seres humanos pousaram espaçonaves robóticas na superfície de Vênus (receio que isso talvez tenha algo a ver com um certo chauvinismo centrado na NASA por parte de muitos americanos). Os soviéticos pousaram em Vênus seis vezes, retornando todas as imagens que temos da superfície do planeta. As imagens são fantasmagóricas e espetaculares.
As primeiras descobertas sobre a natureza de Vênus (e de Marte) ajudaram a criar o novo campo da planetologia comparada, uma das consequências mais fascinantes da exploração planetária. Temos, ao lado da Terra, dois exemplos de planetas que deram terrivelmente errado. A atmosfera de Marte desapareceu e, com ela, sua água. A atmosfera de Vênus entrou numa espiral fora de controle, aprisionando o calor que levou ao seu ambiente infernal.
Assim como aconteceu com os cometas, passamos a compreender a verdadeira natureza de Vênus e Marte. Eles perderam seu significado astrológico com o amanhecer do Renascimento, mas a consequência disso foi nosso conhecimento de que os climas podem mudar, de que nada — nem mesmo nosso paraíso comparativo, a Terra — é permanente. Isso é um fardo pesado. Agora temos a responsabilidade de preservar nosso paraíso; temos dois exemplos claros do que pode dar errado.
Mas seremos capazes de suportar essa responsabilidade? O Episódio 4 introduz outro grande tema da série: nosso próprio papel na manutenção de nossa presença no cosmos. Sagan foi um dos primeiros defensores da ação diante da mudança climática global e do desarmamento nuclear. Ambas são ameaças criadas por nossa nova capacidade tecnológica, e ambas exigem sacrifício e contenção no curto prazo, se quisermos sobreviver no longo prazo.
“As portas do céu e do inferno são adjacentes e idênticas”, diz Sagan no início deste episódio. Trata-se de uma citação do romance A Última Tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis, uma obra um tanto controversa, mas fascinante, sobre as tentações humanas. Sagan e seus roteiristas eram muito cultos, e essa citação certamente foi escolhida para assumir um significado adicional quando examinada em seu contexto.
A última tentação que Jesus enfrenta é viver uma vida feliz e plena como homem — rejeitando seu próprio sacrifício e sua importância para o mundo mais amplo. Ele é retirado da cruz durante a crucificação e, livre da dor, é conduzido para longe, em direção a uma vida simples como agricultor e marido. Com o peso do mundo removido de seus ombros, ele esquece seus antigos ensinamentos e ideias e se afasta das engrenagens do mundo. No fim (como era de se esperar), ele volta atrás e percebe o engano pelo que ele é, escolhendo a realidade do sacrifício doloroso e rejeitando a fantasia sedutora.
Kazantzakis era fascinado pela relação metafórica de Jesus com a humanidade. Toda pessoa enfrenta escolhas semelhantes ao longo da vida, ainda que menos extremas. Somos capazes de transcender nossos desejos imediatos sobre aquilo que gostaríamos que fosse verdade e aceitar a realidade? Como podemos superar nossa própria sedução pela falsidade?
Como Sagan compreendeu, agora enfrentamos essas questões como civilização. Abraçamos as duras verdades da mudança climática global, aquelas que exigem que sacrifiquemos partes de nosso modo de vida agradável em troca de um benefício ambíguo no longo prazo? Ou escolhemos a negação tentadora, que nada exige de nós além de continuar desfrutando da vida? Armamo-nos até os dentes e corremos o risco de perder tudo numa “autodestruição sem sentido”, ou encontramos meios de abandonar a pose orgulhosa dos Estados-nação?
Os seres humanos desvendaram os segredos da tecnologia para beneficiar enormemente nossas vidas. O corolário inevitável — e estranhamente poético — é que essa mesma tecnologia, direta e indiretamente, ameaça nos destruir. O acesso a esse conhecimento exige um certo grau de maturidade que ainda estamos desenvolvendo, tentando equilibrar o melhor de nós contra o pior. Somos o Adão e a Eva que deixaram a doce ignorância do Éden, agora compreendendo plenamente a possibilidade de nossa própria morte. Mas também conquistamos autodeterminação e um certo nível de autoconsciência. Nada é inevitável.
A citação de Kazantzakis no episódio merece ser examinada em seu contexto: Jesus está sonhando com Adão no Jardim. Os pássaros falam com ele, vangloriando-se de suas habilidades e de sua suposta importância. Adão reclina-se junto a uma árvore, relaxado e mais ou menos ignorando a procissão. Mas então um melro pousa em seu ombro e se inclina até seu ouvido, sussurrando com urgência uma mensagem muito mais importante: “as portas do céu e do inferno são adjacentes e idênticas: ambas verdes, ambas belas”, ele o adverte. “Cuidado, Adão! Cuidado! Cuidado!”
- A teoria atualmente mais aceita para a formação da Lua é que um impacto de um protoplaneta do tamanho de Marte que colidiu com a Terra num estágio muito inicial de sua história — algo muito mais dramático do que simplesmente a Lua ter se aglutinado a partir de detritos ao mesmo tempo que a Terra.
- A última missão da NASA a Vênus foi a Magellan, lançada em 1989, que mapeou toda a superfície com radar de alta resolução e sugeriu que a superfície de Vênus é bastante jovem em termos geológicos — com cerca de 800 milhões de anos.
- A ESA (Agência Espacial Europeia) é atualmente a única agência espacial com uma espaçonave em Vênus, a Venus Express, enviada em 2005 para estudar as interações entre a atmosfera venusiana e os ventos solares.
- O cometa Halley é um bom exemplo do caráter errático da história. Os normandos teriam invadido a Inglaterra se o cometa Halley não tivesse aparecido naquele momento tão conveniente? Quão diferente teria sido toda a civilização ocidental sem Guilherme, o Conquistador? Não consideraríamos beef uma palavra inglesa, disso podemos ter certeza.
- O membro da Planetary Society, Don Mitchell, mantém um excelente site sobre a história da exploração soviética de Vênus. Eu o recomendo fortemente. [clique aqui para ver o site]
- Convencer a NASA a enviar uma missão ao cometa Halley foi um dos primeiros grandes esforços de pressão política da Planetary Society. O orçamento limitado da NASA na época estava concentrado no Ônibus Espacial e no Telescópio Espacial Hubble.
- Um belo exemplo da “interconexão de todas as coisas” é a narrativa, neste episódio, que liga os monges do século XII aos resultados científicos das missões lunares Apollo.
“É um cenário estranho: um cometa atinge a Terra, e a resposta da nossa civilização é prontamente se autodestruir.”
“Havia empresários vendendo pílulas contra cometas... acho que vou guardar uma para mais tarde [coloca-a no bolso].”
“Nossa geração precisa escolher. O que valorizamos mais? Os lucros de curto prazo ou a habitabilidade de longo prazo de nosso lar planetário... Descobrimos outros mundos com atmosferas sufocantes e superfícies mortais. Iremos então recriar esses infernos na Terra? Encontramos luas desoladas e asteroides áridos. Iremos então ferir e criar este jovem mundo azul à sua imagem e semelhança?”
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